Uma mãe muito severa chamada Gramática Normativa. Dona Gramática cuidava muito bem de seus filhinhos, tão bem que sua severidade beirava à intransigência. Ela e somente ela estava certa e todos ao seu redor tinham medo de contrariá-la, mas o mundo de Gramática estava mudando, seus filhinhos crescendo, tomando rumo e sua casa antes, cheia de crianças e regras, se esvaziava.
Seus filhinhos mais novos: próclise, mesóclise e ênclise eram os únicos que ainda continuavam debaixo da saia da mamãe. Foram crianças difíceis e adolescentes complicados, estavam sempre sozinhos e ninguém os compreendia. Eram a mãe em todas as suas atitudes.
Lá fora, na fala coloquial, seus filhos eram só sucesso. Se moldavam à atualidade e não deixavam de existir. Muitos quase se perderam com os vícios maternos, mas conseguiram sobreviver nesse "mundo cão" que é o português não padrão. Foram usados e abusados, alguns não pluralizaram, gêneros foram esquecidos e verbos não conjugados, mas eles estavam lá, mostrando à que vieram. Somente os trigêmeos continuam com a mamãe. Incompreendidos, nem seus irmãos mais chegados, os verbos, queriam sua companhia.
"Eis que do aquém do além, de onde não vem ninguém, surgem quem?" A linguística, uma tia de 4353º grau de Norma. Linguística tinha como principal característica facilitar as coisas, compreender os incompreendidos, e colocar no prumo àqueles que estavam se perdendo.
Em uma festa de família (num colégio), Linguística e gramática se reencontraram depois de muito tempo afastadas. Papo vai, papo vem, linguística diz ter orgulho dos sobrinhos mais velhos, mas se preocupa com os trigêmeos, pois até agora eles não conseguiam se entrosar com o português não padrão. Gramática diz que os meninos são como ela e que não compreendem como as pessoas podem deturpar as regras. A tia diz que "a vida é trem bala, e a gente é só passageiro", que temos de nos moldar às novidades e nos fazermos importantes. Percebendo a gravidade da situação pela qual passavam os meninos, ela pede para criá-los. Gramática, relutante, aceita!
Na casa nova, os meninos continuavam retraídos e não se enturmavam com os novos amigos. Assim como a mãe, a tia também tinha muitos filhos, mas esses eram mais novos que eles e que seus irmãos e TOTALMENTE DIFERENTES. Nessa casa, quase tudo podia: Os Substantivos próprios brincavam com as letras minúsculas, o plural sempre se atrasava nas reuniões, e os verbos não tinham milhões de roupas diferentes, para esses uma lhes bastavam. Um lema era pregado por essa família: "Se houve comunicação, houve linguagem" e eles viviam felizes.
Com o tempo, Próclise conseguiu se libertar das amarras psicológicas da mãe e já flertava com a linguística e o português não padrão. Todos na casa brincavam com ele e os verbos já o acompanhavam, Próclise tinha como característica mais marcante ser apressado então sempre se estava na frente de seus primos. Mesóclise e Ênclise continuavam relutantes, mas a tia não desistia e a cada dia mostrava a importância de se entrosar com o novo para se manter vivo.
A vida é uma grande mudança e com a língua portuguesa não poderia ser diferente. Seus falantes mudaram ao longo dos anos, a vida ficou corrida, o tempo escasso e a comunicação precisou ficar mais "rápida". A grande maioria das mudanças se inicia com os jovens e com as classes mais baixas, quando esse uso acaba a sua escalada social é sinal de que foi aceito e não é mais estigmatizado. Assim, ele começa a ganhar espaço nos textos.
De acordo com o linguista Marcos Bagno, não existe erro na língua; existe, sim, variação e mudança linguísticas. Para o estudioso, aquilo que “soa errado aos ouvidos” é uma variação pela qual a língua está passando e, com o passar do tempo, pode vir a consolidar-se em uma mudança linguística. Importante frisar: a mudança linguística parte de uma variação. Para se efetivar, ela depende que ocorra uma concorrência entre formas inovadoras e conservadoras. Quando a variante inovadora sucumbe à conservadora, a mudança se efetivou. Mas atenção: nem toda variação existente na língua se consolidará em uma mudança linguística.
O exemplo da colocação pronominal é um em um milhão. Nesse caso, o português brasileiro fez a sua própria regra para a colocação pronominal. Sabemos que a preferência da gramática normativa é para a próclise, pois o "fator proclítico atrai o pronome" (se não sabe leia sobre em: http://colocacerto.blogspot.com.br/p/colocacao-pronominal-teoria.html). Salta aos olhos o uso da próclise no português do Brasil. A predominância da próclise também se confirma ao constatarmos que a mesóclise já não é utilizada na língua culta portuguesa brasileira (presente apenas em alguns gêneros, como o literário e com o nosso super pronominal - O defensor da mesôclise). Outra comprovação do uso da próclise ser a atual regra do português brasileiro, referente à colocação pronominal, é o fato da ênclise também estar perdendo seu espaço (Super pronominal cuidará disso). Até nos textos mais rebuscados a próclise está presente. Somente os defensores da gramática normativa, veem como um problema linguístico.
Hoje, o emprego da próclise pode ser considerado uma variação linguística do português brasileiro, pois as outras duas formas ainda estão presentes, mesmo que de forma minoritária. Podemos dizer que os modos de empregar a colocação pronominal, no português brasileiro, estão em concorrência, e que a próclise está prevalecendo no uso culto da língua, porém ainda não sucumbiu às demais. Quem sabe, daqui a algum tempo, a mesóclise e a ênclise desaparecerão completamente da língua portuguesa brasileira, já que para isso cabe aos falantes essa mudança. Caso nenhum usuário da língua utilize essas formas, elas acabam e, assim, essa variação atual se consolida em uma mudança linguística, em que o uso exclusivo da próclise será aceito em todos os gêneros, desde os menos monitorados aos mais monitorados.


Sensasional!! 👏👏👏👏
ResponderExcluirAdorei o texto!!
Muito obrigado!
ExcluirMuito bom! Adorei!
ResponderExcluirValeuuuuuuuu!!!!!
ExcluirExcelente texto! Parabéns!
ResponderExcluirMuito legal esse texto!!!
ResponderExcluirObrigado!
ExcluirAmei esse texto!!
ResponderExcluirObrigado!
ExcluirSensacional, Rodrigo! Parabéns pela anedota, muito criativa!
ResponderExcluirMuito obrigado Carina! Um elogio seu é de grande importância.
ExcluirMuito bom o texto!!!
ResponderExcluirValeu
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